Mudanças Parte II

Se você perdeu a primeira parte, vá nesse post aqui.

Mudanca Nº - R:Humaitá, Humaitá, RJ - Brasil

Nos mudamos pra casa da D. Ana num domingo. Luiz fez a mudança no Voyage e de cara adoramos. Zona Sul, prédio bonito com uma escadaria pomposa, quarto enorme. Tinha apenas uma cama e um guarda roupas. Uma dormia na cama, as outras duas em colchonetes. Fomos parar lá por indicação de duas amigas que moraram lá por um tempo, mas estavam se mudando de volta pra cidade delas. Elas adoravam e nós também. D. Ana era separada e tinha três filhos, que não moravam com ela. Uma menina, que gostava de meninas, uma outra menina, que gostava muiiiiito de meninos e ganhava a vida assim e um menino, que era ótimo, um doce e aparecia de vez em quando pra dar um oi. Era bem normalzinho.

Mas... como tudo tem um mas... um dia a noite, sábado, lembro bem, acordamos com gritos na sala. O menino tinha tomado umas e outras, "outras" que eram drogas pesadas e estava tendo alucinações. Um amigo tinha trazido ele pra casa da mãe, mas só piorou a situação, ele pegou um facão que usava quando fazia trilha e ficava atrás de uma das portas. Ele começou a arrancar todos os tacos da sala com o facão e não me lembro bem se pedia pro amigo matá-lo, ou dizia que ia matar o amigo. Não sei. Sei que a esta altura, nós três(eu, a Ana e a Cris) estávamos acordadas, escondidas quase embaixo da cama, rezando pra ele não entrar no nosso quarto, que tinha uma fechadura tão vagabunda, que com um empurrão seria aberta. Eu já estava em prantos, achando que ia morrer e nós três combinamos que já era hora de partir pra um outro lugar. Depois de muito tempo, a mãe conseguiu acalmar o filho.

No dia seguinte, a D. Ana pediu mil desculpas, mas avisamos pra ela que iríamos procurar um lugar pra nos mudar.

A busca por um apto só pra gente


Depois de tantas famílias estranhas, resolvemos que seria hora de procurar um apto pra nós três, pra gente morar sozinha sem famílias problemáticas por perto. A essa altura, nós três já estávamos ganhando três salários mínimos(WOW!!!), mas, não tínhamos nenhuma história de crédito ou mesmo fiador. Foi uma dificuldade pra achar alguém que aceitasse fazer um contrato com três meninas, uma com 17 anos(eu) e duas com 18(Cris e Ana). E a procura por apartamentos foi uma novela.

Nossa preferência era zona sul, mas na nossa faixa de preço, só achamos uns conjugados na praia de botafogo que tinha tantas trancas na porta e tantos sinais de arrombamento, que desistimos antes de entrar. De lá, fomos pra Glória, outro conjugado e o banheiro era minusculo. O chuveiro ficava em cima da privada. Então imagine a cena. No seguinte, também na Glória, o conjugado tinha uma porta que dava pro outro apartamento e ninguém sabia quem tinha a chave. Desistimos. Alguns eram tão pequenos, que dá porta, já dava pra ver o que tinha do lado de fora da janela.

Resolvemos então que deveríamos tentar alugar um apartamento de um quarto, mas em algum bairro mais afastado. Tentamos Tijuca, mas os preços eram proibitivos. Agora imaginem nós três procurando apto, não tínhamos a menor noção de nada. A única coisa que fazíamos questão era que fosse perto do metrô. Acabamos indo parar em Inhaúma.

Fomos visitar um apartamento que parecia perfeito. A dona do apto concordou em fazer um contrato conosco, desde que a gente pagasse adiantado. Era perto do metrô, quarto e sala bem espaçosos com janelões que ocupavam a parede inteira do quarto e da sala, super arejado(como estava no anúncio). Levamos o André, que era namorado da Ana. Ele testou as torneiras, deu descarga e demos a palavra final: ficamos com esse!

E lá vou eu pra mais uma mudança:

Mudança Nº 6 - (Não lembro o nome da rua) - Inhaúma - RJ - Brasil

A mudança foi feita mais uma vez pelo nosso amigo Luiz. Nossas malinhas, colchonetes e uma frigideira que era tudo que tínhamos. Como era feriado, as meninas viajaram pra visitar a família e eu fui levar a "mundança" pro apartamento novo. O André namorado da Ana emprestou um fogareiro de uma boca pra gente fazer comida enquanto não comprasse um fogão. Lembrem-se que no Brasil, apartamento é alugado no "osso", sem fogão, nem geladeira, nem nada... peladinho da silva.

Estava feliz da vida com nosso apartamentinho. Fiquei por um tempo olhando pela janela, apreciando a vizinhança e vi a tempestade que se aproximava. Já era quase de tardinha e em minutos o dia virou noite e um temporal de vento, trovoadas, muita chuva e relâmpagos baixou sobre a cidade. Saí correndo pra fechar as janelas, porque a chuva estava entrando no apartamento e quem disse que as janelas fechavam? O apartamento era antigo, as janelas de madeira, eram daquelas que abriam em vários pedaços e ocupavam toda a parede da sala. No quarto a mesma coisa. Então descobri porque a proprietária fazia questão de mostrar sempre o apartamento de janelas abertas e fazia tanta propaganda do "super arejado". Arejadíssimo.

Depois de alguns minutos faltou luz e eu tive que colocar nossas malas e colchonetes na cozinha, que era o único lugar do apartamento que não estava alagado. Estava sozinha, escutando trovões, relâmpagos, vendo a água se acumular no quarto e na sala. Comecei a chorar, que era a única coisa que eu podia fazer. Só então me lembrei que não tinha comido nada o dia inteiro. Não tinha nenhuma chance de sair na rua, porque tudo estaria fechado a essa altura e a rua estava de água pela cintura. Não tinha telefone, portanto, não podia pedir nada pra comer. Fiquei puta da vida comigo mesmo, porque podia ter facilmente parado numa padaria, comprado um lanche. Mas agora, nada disso adiantava. E quando você está com fome e não tem comida por perto, parece que a fome vai te consumindo. Fui ver nas nossas sacolinhas se tinha sobrado algo e encontrei meio pacote sal que não ajudava muito, metade de um pão francês já meio duro e num potinho plástico, um bife, cru, que era da Cris e ela não tinha comido e um limão. Quase pulei de felicidade. Resolvi que ia fazer o bife, afinal eu tinha o fogareiro de uma boca e uma frigideira. Mas, nós não tínhamos óleo ou manteiga, nem tínhamos talheres. Nenhumzinho. Nem prato, nem nada. Liguei o fogareiro, botei a frigideira e o bife dentro, assim, na secura. Acabei achando um prego na parede, novinho, que lavei com muita água e sabonete(que era o que tínhamos, não tinha sabão) e foi com ele que virei o bife. E foi com ele também que abri o limão e fiz uma limonada sem açucar com água da torneira. E enquanto eu fazia isso, eu chorava, de tristeza, de alegria, de solidão. Terminei de comer o meu "banquete", estiquei o colchonete no corredor entre a cozinha e o banheiro e adormeci cansada de tanto chorar com o céu desabando do lado de fora.
No dia seguinte, a Paula, uma menina que trabalhava com a gente na mesma empresa e morava também em Inhaúma bateu lá em casa logo de manhã, um anjo , me levou pra casa dela pra eu tomar café da manhã, almoçar, jantar. Contei pra ela a história do dia anterior... do prego, do bife e nós rimos muito. As meninas chegaram na segunda-feira e a história da nossa mudança e do prego já estava pela empresa inteira.

Meu chefe, resolveu fazer um pedágio na empresa e arrecadar uma grana pra nos ajudar a comprar um fogão. E anunciou que quem tivesse "coisas de casa" sobrando, que trouxesse, que estavamos precisando.

Em uma semana nossa casa foi mobiliada. Com a grana do pedágio, compramos um fogão: vermelho. Preste atenção nas cores, porque é muito importante. André Pinto, que era um figuraça, doou a geladeira: azul. O Luiz, nosso amigo das mudanças, pegou a Kombi do pai dele emprestado pra transportar a geladeira. No caminho, durante uma curva, a geladeira tombou e quebrou um vidro da Kombi. Claro que nunca teríamos dinheiro pra pagar, o pai deu esporro nele, mas nunca nos cobrou. A mãe do Luiz mandou um ferro de passar roupa e meia dúzia de copos de requeijão. A mãe da Paula, 3 garfos, três facas e três colheres. Tudo era em três. Ganhamos três pratos de outra pessoa. E panelas. Ganhamos uma mesa de fórmica: amarela. Os banquinhos eram de madeira. Na sala, tínhamos dois sofás de um lugar, um marron e outro de outra cor diferente que nem me lembro. Ganhamos uma TV daquelas de 9 polegadas de paraguai. Ganhamos uma cama de solteira de fórmica e um mini guarda-roupa também de fórmica que acho que foram dados pelos pais do André, namorado da Ana e uma outra cama de madeira.

Nada combinava com nada, mas finalmente estávamos no nosso espaço e tínhamos "de um tudo" e tudo era em três. Se a gente tivesse visita, ferrou. Mas éramos muiiito felizes. Eu tinha fotos do dia que chegou a geladeira, mas não sei onde foram parar. Preciso ver com a Cris ou a Ana se elas ainda tem. O prego, ah.. esse ganhou um lugar de honra na cozinha. Pendurado em cima da pia, até um dia que caiu no ralo e nunca mais o vimos. Moramos lá por uns seis meses...porque afinal, até chegar ao número 55 ainda tem muita mudança pela frente... mas isso é história pro próximo capítulo.
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